terça-feira, 14 de abril de 2015

Futurologia no futebol - arte ou chute?

Defini qual é o cenário ideal para as últimas rodadas da Libertadores:
Na quarta-feira, o São Paulo enfia 4x1 no Danubio lá no Uruguai. 
Na quinta-feira, o Corinthians entra com time misto contra o San Lorenzo, joga desinteressado e fica num 1x1 chocho até os 45’ do 2º, quando o juiz inventa um pênalti pro San Lorenzo. 1x2, cai a invencibilidade, a seqüência em casa, etc, etc, etc. A torcida comemora que ferrou o São Paulo mais ainda, Tite nega que tenha menosprezado o adversário ou que tivesse tentado prejudicar o rival.

A rodada final começa assim:

GRUPO 2
PG
J
V
E
D
GP
GC
SG
1
Corinthians
12
5
4
0
1
10
3
7
2
São Paulo
9
5
3
0
2
9
4
5
3
San Lorenzo
9
5
3
0
2
5
4
1
4
Danubio
0
5
0
0
5
3
16
-13

Jogos marcados no mesmo horário pra evitar que não haja favorecimento a um time. O São Paulo atrasa 10 minutos para entrar em campo, querendo dar uma de esperto, mas o San Lorenzo desliga a luz do estádio, que demora 40 minutos para ligar de novo. A CONMEBOL dá uma multa de 250 dólares pra cada um.

O San Lorenzo faz 2x0 em 5 minutos de jogo. No último minuto do 1º tempo, o São Paulo faz 1x0, gol de Luis Fabiano em um cruzamento de Michel Bastos. O San Lorenzo passa o trator, faz 3x0 e 4x0 antes do intervalo.

Situação no intervalo:
GRUPO 2
PG
J
V
E
D
GP
GC
SG
1
Corinthians
12
6
4
0
2
10
4
6
2
São Paulo
12
6
4
0
2
10
4
6
3
San Lorenzo
12
6
4
0
2
9
4
5
4
Danubio
0
6
0
0
6
3
20
-17

Logo no começo do 2º, o São Paulo faz 2x0 com Ganso em jogada individual. O San Lorenzo nem tinha voltado pro 2º tempo.

GRUPO 2
PG
J
V
E
D
GP
GC
SG
1
São Paulo
12
6
4
0
2
11
4
7
2
Corinthians
12
6
4
0
2
10
5
5
3
San Lorenzo
12
6
4
0
2
9
4
5
4
Danubio
0
6
0
0
6
3
20
-17

Corinthians nervoso em campo, é a primeira vez em muito tempo que o São Paulo domina um Majestoso. Elias é expulso por uma cotovelada em Souza. Tite diz para o árbitro que ele fala muito e também é expulso. Na saída, bate boca com Milton Cruz e a leitura labial da Globo diz que ele reprtiu várias vezes a palavra ‘interino’.
O San Lorenzo volta no mesmo ritmo e faz mais 2. 6x0 no Nuevo Gasómetro, a torcida vai à loucura, milhares são convertidos instantaneamente ao cristianismo e TV argentina começa a pleitear a canonização de Francisco I. Nesse momento, o Corinthians está eliminado. E com um a menos. E sem Guerrero. E sem técnico.

GRUPO 2
PG
J
V
E
D
GP
GC
SG
1
San Lorenzo
12
6
4
0
2
11
4
7
2
São Paulo
12
6
4
0
2
11
4
7
3
Corinthians
12
6
4
0
2
10
5
5
4
Danubio
0
6
0
0
6
3
22
-19

Porém, algumas coisas não mudam. Wagner Love é lançado nas costas da zaga (dizem as más línguas que impedido), domina (segundo as mesmas línguas, com o braço) e diminui para o Corinthians. Tolói é expulso por dar uma cabeçada no juiz na reclamação generalizada que se segue. 
Na Argentina, o Danubio também diminui com um gol contra. Os uruguaios nem ao menos comemoram.
Tudo empatado. Arnaldo escava o regulamento da CONMEBOL, traduz os hieróglifos e descobre que em caso de empate em pontos, SG e GP, vale o número de gols marcados como visitantes. Se acabar assim, entram São Paulo e Corinthians, sendo o primeiro lugar definido em sorteio.

GRUPO 2
PG
J
V
E
D
GP
GC
SG
GV
1
Corinthians
12
6
4
0
2
11
5
6
4
2
São Paulo
12
6
4
0
2
11
5
6
4
3
San Lorenzo
12
6
4
0
2
11
5
6
3
4
Danubio
0
6
0
0
6
4
22
-18
1

Mas não acaba. Ganso enfia uma bola milimétrica nas costas de Gil, Luis Fabiano entra na cara do gol, dribla Cassio e faz 3x1. Delírio no Morumbi, desespero nas cabines da Globo. Casagrande tenta desenvolver uma tese de que o futebol brasileiro tem obrigação de se ajudar e que o São Paulo precisava tomar mais um gol para classificar o Corinthians também – tudo isso na prosa fluida característica do comentarista.
Só que o San Lorenzo estraga a tese e faz mais um. Com o proverbial 7x1, classifica-se matematicamente para a próxima fase.

GRUPO 2
PG
J
V
E
D
GP
GC
SG
GV
1
São Paulo
12
6
4
0
2
12
5
7
4
2
San Lorenzo
12
6
4
0
2
12
5
7
3
3
Corinthians
12
6
4
0
2
11
6
5
4
4
Danubio
0
6
0
0
6
4
23
-19
1

Agora, virou mata-mata. Corinthians x São Paulo, 15 minutos de jogo, só um passa de fase. Se o Corinthians fizer mais um, elimina o São Paulo nos gols como visitante. A informação chega ao banco corinthiano, que parte para a pressão total nos minutos finais. Emerson recebe dentro da área, dribla Hudson e chuta colocado, mas Rogério Ceni se estica pra espalmar. No rebote do escanteio, Danilo acerta uma bomba rente à trave, mas Denilson dá um peixinho e tira de cabeça. A bola sobra pra Ganso, que lança Michel Bastos na esquerda. Não tem ninguém do Corinthians na zaga, é ele e Cassio. Ele encobre o goleiro e faz 4x1.

Situação ao final do jogo:

GRUPO 2
PG
J
V
E
D
GP
GC
SG
GV
1
São Paulo
12
6
4
0
2
13
5
8
4
2
San Lorenzo
12
6
4
0
2
12
5
7
3
3
Corinthians
12
6
4
0
2
11
7
4
4
4
Danubio
0
6
0
0
6
4
23
-19
1

E o universo volta a ficar em equilíbrio.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A Ganso o que é de Ganso

No começo dos anos 2000, o SPFC teve  um meia de características parecidas com o Ganso: o Adriano, que apareceu como uma baita promessa na base, mas nunca foi tudo o que parecia que podia ser. Habilidoso, cerebral, batia bem na bola, mas também era lento e não marcava quase nada.

Aqueles foram os anos mais negros que os são-paulinos da minha geração viveram. Seca de títulos, 10 anos sem Libertadores, freguesia para o Corinthians (detalhe relevante: sem rebaixamento ou mesmo briga contra ele. As crises de alguns são piores que a de outros). Foram anos que queimaram grandes jogadores (Leonardo, LFabiano, França) e promessas (Julio Batista, Fabio Simplício), em que gravitávamos constantemente entre o 6º e o 12º lugar do Brasileiro.

Pois em 2001 a coisa parecia que ia ser diferente. Tínhamos um dos melhores centroavantes da história do clube (França), um garoto com faro de gol (LF), um craque vindo da base (Kaká) e um elenco de suporte pra lá de razoável (Julio Batista, Fabio Simplício, Gustavo Nery, Belletti, Carlos Miguel, Maldonado, Emerson, o próprio Adriano). Todos na mão do fatídico Nelsinho Batista, que apesar das polêmicas e dos fartos 1-7 na carreira, até que montava um time azeitado. Ganhamos o Rio-SP daquele ano, o que era um belo aperitivo, e apresentamos o Kaká para o mundo (nessa época, ainda como Cacá). Chegamos em 7º no Brasileirão e caímos no mata-mata para o futuro campeão Atlético-PR, num jogo em que as pancadas de Cocito ofuscaram o melhor Furacão da história.

Pois bem, esse time do São Paulo o Nelsinho azeitou de vez ao puxar o Adriano para o meio dos volantes. Ao invés de deixá-lo mais avançado, como um meia tradicional, onde era presa fácil para os volantes adversários, Nelsinho o trouxe para armar de trás, entre Maldonado e Julio Batista, acionando um ataque letal, com Kaká, França e Luis Fabiano. Adriano não era visado como Ganso, não atraía tanta marcação, por isso tinha espaço para armar quando recuava. Dificilmente alguém vai dar essa liberdade para o Ganso, mas esse é mais um motivo para a estratégia funcionar melhor agora do que em 2001. Se o volante vier atrás do Ganso no meio de campo, vai abrir espaços para Pato, MBastos, Kardec e/ou LFabiano. Se não vier, Ganso vai ter a liberdade e o tempo necessário para buscar o espaço na defesa adversária – coisa que hoje vem sendo feita por Denilson e Souza. O São Paulo só tem a ganhar em ambos os casos.

Do jeito que está montado hoje, o SPFC tem a posse de bola nos pés dos jogadores errados. Pode pegar um Footstats da vida, os campeões da bola no pé vão ser Denilson, Souza, Tolói, Dória, Hudson e Reinaldo (ou Bruno e Carlinhos, tanto faz). A bola chega no Ganso com um cara grudado nas costas dele e meio segundo pra ele resolver. Seria o mesmo que o Barcelona fantástico do Guardiola deixar a bola com Busquets e Piquet: não ia sair nada, ficaria só posse de bola estéril. Tinha que vir um Xavi ou Iniesta pra armar, ou o Messi pra fazer uma mágica. O segredo estava em ficar com a bola até que esses caras tivessem espaço para fazer algo. No SPFC, o objetivo parece ser ficar com a bola e ponto.

Hoje em dia, qualquer time pequeno que enfrenta o SPFC pode ficar encolhido lá atrás sem nenhum pudor ou receio. Os atacantes tricolores vão ficar sem espaço, a bola vai ficar com jogadores que não tem capacidade de criar e vão ter 200 cruzamentos na área. Daí, quando o time começar a ficar nervoso, vão sobrar os espaços pra contra-ataque.

O Ganso é o jogador mais prejudicado nesse esquema. Ele não é o cara que vai resolver em meio metro de campo com o marcador em cima. Não adianta cobrar isso dele – assim como não adianta cobrar que ele entre na área. É preciso puxá-lo pra fora da muvuca, pro lugar onde tem espaço pra jogar. É preciso colocá-lo na linha dos volantes pra armar o jogo com espaço. E se a marcação adversária subir para acompanhá-lo, tanto melhor, que vai abrir espaço para os demais.

É preciso parar de cobrar que o Ganso seja um Raí ou Kaká e deixar que ele seja um Adriano.

domingo, 6 de julho de 2014

Breve Diário da Copa

12/junho
Uma abertura meia-boca e um showzinho chocho foram os aperitivos para a vitória do Brasil sobre a Croácia no início da Copa do Mundo. Tivemos todos os ingredientes possíveis pra tudo dar errado: pressão da torcida, adversário bem postado, gol contra logo no começo...mas o Neymar pôs a bola embaixo do braço e resolveu o problema - com uma ligeira ajuda do juiz japonês.

13/junho
Na mais aguardada partida da primeira fase, a Holanda não tomou conhecimento da campeã do mundo e sapecou 5 pra cima da Espanha - com grande colaboração do Casillas, diga-se de passagem. No mais, o México saiu na frente no triangular pela 2ª vaga e o Chile fez sua lição de casa com tranquilidade.

14/junho
Mais um dia de jogos memoráveis, com zebras doloridas (ah, Uruguai!) e muitos gols - até agora, temos 28 gols em 8 jogos, uma quantidade que só foi alcançada na África do Sul após 17 partidas!

15/junho
Hoje foi um dia histórico para as Copas: pela primeira vez, um dispositivo eletrônico evitou que um gol legal não fosse dado. Se existisse 48 anos atrás, a Inglaterra ainda seria o México da Europa.

Como é sabido (e cientificamente comprovado), a Copa do Mundo é um período em que a percepção dos dias da semana fica um pouco difusa, relativa, variável. A questão deixa de ser 'quando é meu rodízio' e passa a ser 'quando joga fulano ou ciclano'. Assim sendo, amanhã será uma alegre e divertida Alemanha-e-Portugal-feira.

16/junho
Hoje o dia começou fulminante: um Panzer germânico atropelou os lusos e um alemão aí tá ameaçando o recorde de gols em Copas do Ronalducho (e não é o Klose). Depois ficou meio sorumbático, com Nigéira e Irã fazendo o pior jogo da Copa disparado - torçamos para que não haja mais concorrência. E pra fechar a montanha-russa, os EUA (!) fazem um gol relâmpago (!!), tomam o empate de Gana, mas vão buscar a vitória nos 5 minutos finais do jogo (!!!).

E amanhã...HAJA CORAÇÃO, amigo! É dia de Brasil! 

17/junho
Foram mais de 300 km de congestionamento em São Paulo, milhares de pessoas que ficaram presas no trânsito até o intervalo e outras milhares que pararam no meio do caminho pra ver em qualquer boteco. E a culpa não é (só) da Dilma e do Blatter, mas também (e principalmente), de Ochoa, a muralha mexicana que parou tudo. O homem foi um paredão. Pegou até pensamento. Gastou a bola. Tanto que não sobrou nada para o Akinfeev, o goleiro da Rússia responsável pelo maior frango da Copa até agora. Um frango proverbial, daqueles que o sujeito fica com as penas na mão. Deu até dó, coitado.

18/junho
O diário está de luto pelo falecimento trágico e precoce do tiki-taka. Em respeito, não teremos boletim hoje. Amanhã voltamos com nossa programação normal.

19/junho
É, amigos, os últimos dois dias começaram a separar os meninos dos homens. A badaladíssima Espanha é como aquele menininho mala, dono da bola, que quer escolher o time, ser o capitão e o camisa 10 - chegou ao Brasil com o rei na barriga e volta pra casa mais cedo para ver a abdicação de Juan Carlos. Camarões, que desde 82 é sempre candidato a surpresa da Copa, é o menininho brigão, que faz bullying e, quando perde na bola, tenta arrumar confusão pra melar o jogo - levou um sonoro 4x0 da Croácia, tentou apelar e ainda viu dois jogadores quase saírem no tapa em campo. Ambos conseguiram a proeza de serem eliminados antes de Honduras e Irã.

Amanhã, chegaremos à metade da fase de grupos da Copa emblematicamente em Itália x Costa Rica. Conseguirão Pirlo e Balotelli salvar a pele dos súditos da rainha?

20/junho
Outro dia, outras histórias, cada uma melhor que a outra. Se ontem a consagração de Luiz Suárez deixou a Inglaterra à beira do abismo, hoje a Costa Rica deu o empurrãozinho que faltava. God save the Queen, porque a seleção já era. E após duas vitórias convincentes sobre campeões do Mundo, a Costa Rica pode se apresentar: muito prazer, sou a Morte, a dona desse Grupo.

Já a França vem ignorando solenemente os desfalques, o futebol fraco das eliminatórias e os adversários do seu grupo. Jogando na Bahia de Todos os Gols, transformou a outrora inexpugável defesa suíça em um Gruyère e caminha a passos largos para ser uma das únicas seleções européias a se classificar sem sustos. Sim, porque do jeito que as coisas andam, essa Copa tá mais com cara é de Libertadores.

21/junho
Essa Copa anda mesmo surreal. Hoje, o terceiro europeu foi despachado sumariamente para casa - e amanhã pode (deve) ser a despedida do gajo Cristiano Ronaldo e seus tugas. Mas o nível de surrealidade ainda vai aumentar assustadoramente. Acompanhem esse exercício de futurologia:
Imaginem que o Chile vença a desfalcada Holanda e a Nigéria consiga uma vitória suada contra uma sonolenta Argentina. Poderíamos ter de um lado da chave Chile x México, Costa Rica x Costa do Marfim, Suíça x Nigéria e Bélgica x EUA. Uma briga de foice no escuro por UMA VAGA NA FINAL DA COPA DO MUNDO! Claro, se a Argentina não perder para a Nigéria, esse lado da chave vai ficar com ela e as sete zebras. E ainda tem gente que diz que a Copa tá comprada pro Brasil.

22/junho
Mais um dia memorável, com uma chuva de gols no confronto menos promissor da rodada e Portugal evitando a eliminação aos 50' do 2º tempo. Não tem muito o que discutir, dentro de campo, essa Copa já é a melhor de todos os tempos. Até Portugal x EUA virou jogão. Até Argélia x Coréia do Sul! Não tem nem comparação. A Copa tinha que ser no Brasil toda vez. E, de preferência, todo ano. Carnaval em Fevereiro, Páscoa em Abril, Copa em Junho e Natal em Dezembro.

23/junho
Enfim, entramos na reta final da primeira fase da Copa. Agora, metade dos 32 times entra em férias e a outra metade se divide entre os favoritos e os o-que-vier-é-lucro. Holanda e Brasil se credenciaram no primeiro grupo (graças ao Neymar), enquanto México e Chile encabeçam o segundo. Porém, pela bola que jogaram até agora, posso garantir que nenhum dos quatro ficou muito feliz com o emparceiramento...

24/junho
No segundo dia de eliminações, mais convidados ilustres se despediram. Alguns deixam saudade, como Pirlo e Buffon, que mostraram ser como o vinho. Outros já vão tarde, como Costa do Marfim e Japão, que derrubam a tese de que não há mais bobo no futebol. Tem ainda o Luis Suárez, que sai pela porta dos fundos, algemado e deportado.

Já temos duas pernas de Quartas-de-Final definidas e a única certeza é que um sul-americano estará entre os quatro melhores do mundo. Ah, e também que a Holanda está rindo à toa com seu caminho até a semi.

25/junho
Mais dois confrontos das Oitavas-de-Final foram decididos ontem. A Argentina teve a atuação de gala que espera de Messi desde seus 13 anos e só fez 3x2 na Nigéria (ou a Nigéria está mais forte do que parecia, ou só o Messi não é tanto assim) o que, combinado com a vitória da Bósnia sobre o Irã, fez com que ambos se classificassem. A França fez um jogo aberto e franco contra o Equador, com 30 chutes a gol de lado a lado, mas os goleiros sobrepujaram os atacantes e o placar ficou 0x0 (ah, a altitude...certeza que em Quito a França levaria pelo menos 4x0). Como a Suíça conseguiu preencher sua cota de gols na rodada, a segunda vaga ficou com os helvéticos e o Equador foi o primeiro país da América do Sul eliminado da Copa.

26/junho
E então, mais cedo do que pensávamos, chegamos ao desfecho da primeira fase. Os dezesseis melhores foram definidos e as Oitavas-de-Final nos reservam alguns duelos saborosíssimos. Dois deles são confrontos sulamericanos, em que o estádio ficará dividido e o clima do jogo será 100% de Libertadores. Dois deles entre times franco-atiradores, já felizes de ter chegado até aqui, mas cujo emparceiramento permite estender um pouco mais a história de Cinderela. Três deles sem tanta rivalidade, mas com favoritos destacados, o que sempre é perigoso em mata-matas. 

Mas um deles é especial, um tira-teima 32 anos depois de uma das maiores injustiças das Copas do Mundo. Argélia e Alemanha se enfrentam pela primeira vez após o "jogo da vergonha" de 1982, onde a Áustria e a Alemanha Ocidental combinaram o resutado que classificaria ambas (uma vitória de 1x0 para os alemães), chegaram a ele logo aos 10 minutos do 1º tempo e ficaram apenas tocando a bola no meio de campo durante o resto do jogo, sob vaias ensurdecedoras da torcida. Será que os argelinos vão estar motivados?

28/junho
Jogos eletrizantes do início ao fim, de deixar os cabelos em pé. Uma média de uma prorrogação por dia, com duas disputas de penaltis. Sim, são as Oitavas-de-Final, o que equivale a dizer que é o começo do fim da Copa.

O Brasil foi teste pra cardíaco, com uma penca de gols perdidos, erro da arbitragem contra a gente, bola na nossa trave nos acréscimos do 2º tempo da prorrogação e a reencarnação do Taffarel no Julio Cesar. 

29/junho
A Holanda conseguiu virar contra o México nos cinco minutos finais com um penalti pra lá de maroto (ah, se fosse o Fred...). E hoje, após meia Copa do Mundo de apoteose dos atacantes, finalmente os goleiros roubaram o show. Rais, da Argélia, e Neuer, da Alemanha, só não fizeram chover em Recife.

3/julho
Depois dos dois depressivos dias, curtindo uma ressaca sem a Copa do Mundo (imagina como vai ser DEPOIS da Copa), eis que voltamos com nossa programação normal. E voltamos com a ótima geração belga finalmente mostrando a que veio, em um jogo maluco contra os EUA onde só a prorrogação teve mais chances de gol que toda a campanha da Espanha em 2010. Tim Howard fez um partidaço e Courtois garantiu a passagem para as Quartas no último lance, provando que essa Copa é mesmo dos GOLEIROS - e claro, nós precisamos de bons atacantes para serem nossos coadjuvantes. Também tivemos a Argentina suando sangue pra se livrar da Suíça, sendo salva no último lance por (sempre ele) Messi.

4/julho
No primeiro jogo do dia, a Alemanha recuperou sua tradicional eficiência pra bater a França e chegar à sua 13ª semifinal de Copa do Mundo. Das 20 que tiveram. Só isso.

À tarde, fomos da alegria às lágrimas em questão de minutos. O Brasil fez seu jogo mais seguro na Copa, se impôs e ganhou da Colômbia por 2x1, com atuação de gala da dupla de zaga. Porém, perdemos o Neymar. Nem importa como, importa só que a Copa perdeu sua cara. Nós perdemos a referência, o franchise player, o herói superpoderoso capaz de resolver tudo. E o mundo perdeu a chance de ver um Neymar x Messi em 13/julho, no Maracanã.

5/julho
A Argentina ganhou mais uma sem convencer e despachou a ótima geração belga. Já a Holanda sofreu (e muito) na mão da Costa Rica e, principalmente, de Keylor Navas, que fez pelo menos 3 defesas monstruosas - além de que o Van Persie estava em dia de Ademilson e perdeu mais dois gols de dentro da pequena área. Mas o melhor foi o Van Gaal, que trocou o goleiro no último minuto da prorrogação e viu o Krul pegar dois penaltis, classificando o time pra sua segunda semifinal seguida - igual 74 e 78...vem outro vice aí?

De heróis e pênaltis

Disputa de pênaltis é uma coisa complicada, inverte a polaridade de heróis e vilões. Lembro um São Paulo x União Barbarense em um Paulistão daqueles malucos onde empates iam para os pênaltis com um ponto extra em disputa. O São Paulo ganhava de 2-1, um jogo modorrento como só o Paulistão consegue produzir. No último minuto, o falecido Adil bateu uma falta quase da intermediária no ângulo e empatou o jogo. Festa, euforia e tal. Nos pênaltis, advinha quem erra a cobrança? O Adil. No fim, o São Paulo saiu eufórico por ter ganho nos pênaltis, apesar de ter perdido um ponto praticamente ganho. A Barbarense saiu cabisbaixa, mesmo recuperando um jogo perdido. E o Adil, o herói que empatou o jogo no apagar das luzes, saiu como o vilão por ter perdido seu pênalti.

Holanda x Costa Rica foi um pouco disso. Jorge Luis Pinto vinha se dando melhor que Van Gaal durante o jogo, muito por causa da atuação brilhante de Navas. Aos 15 minutos do 2o tempo da prorrogação, Van Gaal troca o goleiro, que entra pra pegar dois pênaltis e classificar o time pra semi. Navas foi o melhor em campo, mas "decepcionou" porque não pegou pênalti. Van Gaal levou um nó tático em boa parte do jogo, mas sai como o gênio que pôs o cara certo pra decidir. Robben e Van Persie saem eufóricos por chegarem à semi e a torcida nem lembra que eles perderam o duelo com a zaga e o goleiro dos Ticos - o Van Persie, especialmente, perdeu gols de fazer corar Deivid e André Lima. E a Costa Rica, que fez a melhor campanha da história do país, bateu de frente com as potências mundiais, sai de cabeça baixa porque viu a vaga chegar muito perto.

O fim da cara da Copa

Não consigo nem imaginar o que passa pela cabeça do Neymar. Tanta expectativa, tanta preparação pra jogar um campeonato único, uma Copa em casa! Tanta pressão da torcida, tanta corneta da imprensa...acho que nenhum jogador jamais esteve sob tanta pressão quanto ele. Talvez o Barbosa pós Maracanazzo. 

E o moleque tava correspondendo! 4 gols, duas assistências, o cérebro do time, o desafogo. O cara que põe a bola debaixo do braço, o batedor do último pênalti. Mesmo não jogando tudo o que pode, era o oásis de futebol nesse meio campo árido.

E agora, acabou. O sonho de ganhar a Copa em casa foi pro espaço por causa da imprudência de um adversário, um dentre tantos que tentou pará-lo na bola e, não conseguindo, apelou pra pancada.

Se o Dunga não tivesse sido tão teimoso, ele já estaria na segunda Copa do Mundo. Quem sabe até já tivesse um título no currículo, e essa contusão deixaria sua trajetória ainda mais parecida com a do Pelé. A frustração de 2010 deve amplificar ainda mais essa de agora.

Enfim, Neymar, desejo que você tenha muita força e equilíbrio na recuperação. Nessa Copa das Copas de tantas boas histórias e memórias, você tem lugar entre as melhores.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Normalizando São Paulo e Atlético-MG

Existe uma técnica no mundo corporativo muito usada para comparar coisas que não são diretamente comparáveis. Chama-se normalização. Ela consiste em tirar da amostra todas as diferenças estruturais conhecidas para aumentar a sua comparabilidade (gostou dessa, Adenor Bacchi?).

Por exemplo, a empresa A vende sabão e amaciante e a empresa B vende só sabão. Se eu quiser comparar a performance das duas, vou ter que pegar o indicador da empresa A (por exemplo, receita de vendas) e retirar dele todo o efeito do amaciante no resultado. Assim, normalizando a amostra, posso saber quem vende mais sabão entre esses concorrentes.

Pois bem, no futebol as análises são muito mais subjetivas e, por isso mesmo, mais complexas. Se quisermos analisar a performance de São Paulo e Atlético nessa Libertadores, todos os indicadores apontam para uma vantagem avassaladora do time mineiro. Melhor campanha dentre todos os times na primeira fase, time jogando por música, goleadas acachapantes sobre o time que ganhou do São Paulo, derrota só quando o time estava só 'brincando' (ahã, for the sake of the argument). No lado paulista, o extremo oposto: último dentre os classificados, derrotas vergonhosas para times ridículos, nenhuma boa atuação nos 5 primeiros jogos e uma última vitória na marra contra um Atlético 'brincando' (ainda for the sake of the argument). Além do mais, ambos já se enfrentaram 3 vezes esse ano, com duas vitórias do Galo contra uma do São Paulo, e essa ainda foi no jogo da 'brincadeira' (ok, parei).

Enfim, como eu disse, um monte de números apontando para a superioridade do Galo. Porém, sabe-se que o futebol não é nem um pouco exato e objetivo. Alguns times 'encaixam' melhor contra uns que contra outros, alguns jogadores crescem e outros somem em momentos decisivos, assim por diante. Além disso, cada situação no jogo pode evocar uma resposta diferente de um mesmo time: ele pode jogar melhor no contra ataque, só se sentir confortável com a posse de bola, etc. As possibilidades são inúmeras - e todas relevantes, já que o jogo pode ser decidido em alguns detalhes.

Tomando tudo isso como base, vamos iniciar nossa Análise Normalizada de São Paulo e Atlético® considerando que, como estamos em um mata-mata (no qual o primeiro 'mata' já foi), apenas os confrontos entre os dois devem ser levados em conta. Dessa forma, retiramos do quadro as possíveis dificuldades do São Paulo contra times menores, que não vai entrar em campo na semana que vem. Também com esse espírito, vamos desconsiderar a vitória do São Paulo na última rodada da fase de grupos, onde o Galo jogou  com pouca motivação. Sobraram apenas o primeiro jogo, no Independência, e o jogo de ontem. Vamos desconsiderar também o jogo de ontem a partir da expulsão do Lúcio, que claramente 'desnormalizou' o jogo - os gols perdidos pelo Ademilson são parte do jogo e podem se repetir na semana que vem, enquanto o desequilíbrio psicológico do Lúcio, felizmente, não.

Ficamos com um jogo e 34 minutos de outro para analisar. Não é uma amostra muito grande, mas já dá pra ver algumas coisinhas. Por exemplo, que o Atlético gosta de ditar o ritmo do jogo - como foi no primeiro tempo no Independência. E que não sabe jogar em desvantagem - o time ficou visivelmente desconfortável nos 34 minutos do Morumbi. Da mesma forma, podemos dizer que o São Paulo tem time pra afogar o Atlético - fez isso nos 34 minutos do Morumbi e no segundo tempo do Independência. Só que, pra isso, precisa da entrega na marcação que teve aqui em São Paulo, sem deixar os espaços para contra-ataque que culminaram com o segundo gol lá em Minas.

Também deu pra perceber que o Atlético prefere administrar a vantagem à finalizar o oponente - teve chance de golear o São Paulo tanto no Independência quanto no Morumbi e não o fez, além de não ter se esforçado para eliminar o adversário no jogo da 'brincadeira'. Ou seja, é um time consciente da sua força e que tem sido meio preguiçoso contra o São Paulo.

O panorama ideal para o São Paulo era ganhar o jogo em casa para jogar no contra-ataque em Minas. Como isso não é mais possível, teremos que ir pra cima do Galo como se o jogo fosse em casa. A pressão da torcida vai ser grande e vai ser difícil o time deles aceitar a nossa marcação alta como foi no Morumbi.

Porém, para o jogo da semana que vem, o Atlético tem todas as vantagens possíveis. Joga diante da sua torcida, começa o jogo classificado, vem de um jogo fácil no fim de semana (Tombense, enquanto o São Paulo pega o Corinthians) e com o time embalado. Ou seja, não tem motivo nenhum para ir para cima do São Paulo. E é aí que o tricolor pode ter uma chance.

Se conseguir encaixar sua marcação pressão e fizer um gol rápido, como foi nos 34 minutos do Morumbi, o São Paulo pode acender a centelha da dúvida na alma atleticana. A mesma dúvida que apareceu no jogo de ontem, que acabou gerando 4 chances claras de gol e que só sumiu por causa do Lúcio. Se o placar marcar 0-1, o Atlético vai ficar em desvantagem apenas pela segunda vez na Libertadores - sendo que na primeira eles estavam nas cordas e foram salvos pela expulsão do Lúcio. Como o Galo vai reagir se o São Paulo não resolver esse problema pra ele?

Essa é a questão que o São Paulo precisa propor na semana que vem. Não é fácil (até porque o discurso fácil do derrotismo já foi acionado pelo Rogério na saída do gramado ontem), mas é possível, como a nossa análise normalizada mostrou.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Curta da Lui

No supermercado, Lui sentada dentro do carrinho conversando com o papai.
Lui: Olha lá, papai! Uma galinha voando no teto!
Papai: Não deve ser, Lui. Galinhas não voam.
Lui: É mesmo! Então deve ser um Pequenodáctilo!